Há mais de 15 anos trabalho com a formação de sacerdotes no meu estado. Com uma alegria imensa, colaboro diariamente para a renovação espiritual e moral dos homens e mulheres, meus irmãos, no estado do Rio de Janeiro e posso testemunhar que a formação desses rapazes é realmente muito boa. São, no mínimo, 9 anos de desenvolvimento humano e espiritual, estudando a história da Igreja, dos santos que nos precederam, estudando as correntes de pensamento, atuais e do passado, discutindo, debatendo e aprendendo com os que vieram antes de nós, a fim de transformarem o mundo a sua volta. O resultado é que temos no Estado do Rio de Janeiro um clero enorme, muito bom, comunidades cristãs vivas e atuantes e um seminário com mais de 100 candidatos.

Nenhum segredo: quando se investe tempo e recursos, a qualidade e a quantidade das vocações melhora.

Mas o que eu sempre me perguntei foi o seguinte: por que a formação para o matrimônio católico não se assemelha à formação para o sacerdócio católico? Se matrimônio e sacerdócio são sacramentos de serviço, se ambos foram criados para servirem a Igreja e à Boa Nova de Jesus, por que os casais católicos não se lançam num processo formativo, ainda que não idêntico, ao menos semelhante a dos sacerdotes? Rascunhei uma resposta, a partir dos mais de 20 anos de estudo e atendimento de casais de namorados, noivos e recém-casados: tenho a impressão de que muitos dos que se dão em casamento não acreditam que o matrimônio é uma vocação de Deus para as próprias vidas, a maioria dos candidatos ao matrimônio não acredita que a vida familiar é algo que Deus queira desde sempre para eles. É por esse motivo que a formação para o matrimônio é o calcanhar de Aquiles, o ponto fraco, na formação dos cristãos católicos no Brasil.

Em nossas paróquias, nos grupos de oração, no contato de orientação para os namorados e noivos, é muito comum ouvir o jovem dizer: “ah, eu não fui chamado ao sacerdócio. Então, me resta o casamento”. Ou pior (e essa eu ouvi em um ambiente de formação de um formador altamente gabaritado): “o matrimônio foi dado aqueles que não conseguem ser castos no sacerdócio”. Por detrás dessas posturas está um equívoco comum: de que o matrimônio é um un-geist (não-espírito). Na cabeça dessas pessoas, a vocação religiosa e sacerdotal seriam um chamado do Espírito (Geist) a uma vida mais santa, um chamado de Deus a uma vida de perfeição e santidade. O matrimônio, pelo contrário, seria um não-espírito, um não-chamado, ou um chamado a uma vida medíocre, simplesinha, morna, uma vida imperfeita. Eis a semente do futuro divórcio!

Quem se sentiria inspirado a viver a radicalidade do Evangelho, a radicalidade do amor, a radicalidade do cristianismo num estado de vida que, a seus próprios olhos, é uma vida imperfeita, uma vida medíocre, uma vida para os não-chamados à santidade? Quem se derramaria de amor se entendesse que esse é um amor de segunda classe? Essa é, na minha opinião, a primeira barreira que precisa barreira a se ultrapassar para começarmos a proteger os calcanhares de Aquiles. O matrimônio foi pensado por Deus desde o início da criação e foi elevado a alturas superiores, pelo mistério da Encarnação de Cristo. É isso que ensina o Conselho Pontifício para a Família:

O contrato conjugal foi assumido e elevado pelo Senhor Jesus Cristo, na força do Espírito Santo, a sacramento da Nova Aliança. Associa os cônjuges ao amor oblativo de Cristo Esposo pela Igreja, Sua Esposa (cf. Ef 5, 25-32) tornando-os imagem e participantes deste amor, faz deles um louvor ao Senhor e santifica a união conjugal e a vida dos fiéis cristãos que o celebram, dando origem à família cristã, igreja doméstica e «primeira célula vital da sociedade»[1].

Os homens e mulheres cristãos precisam entender que o matrimônio é caminho de santidade, assim como a vida consagrada, religiosa e sacerdotal. É o próprio Deus quem chama os esposos para uma vida de doação e entrega, realizando uma tarefa reservada apenas aos casais: a geração de filhos e a formação de uma comunidade de amor para a Igreja. Precisamos gritar sobre os telhados das paróquias que o século XXI é o século dos santos dos lares cristãos.

Nesse artigo de inauguração de minha coluna semanal, parabenizo o Portal Católico do Espírito Santo pelo importante trabalho de formação católica nas redes. Que seja fecundo e duradouro seu apostolado para os cristãos do Brasil! Que Deus abençoe e confirme esse trabalho.


[1] Conselho Pontifício para a Família. Preparação para o sacramento do matrimônio, §9.

3 COMENTÁRIOS

  1. Thaylan Granzotto

    Logo que me converti comecei a enxergar a coisa dessa forma: que o sacerdócio era mais nobre que matrimônio, que de fato o sacerdócio envolvia uma maior entrega, uma maior mortificação, uma maior renuncia. Mas depois de ter noivado e, por motivos de força maior, típico de um estado de necessidade, ter de conviver na mesma casa que minha noiva, vi que o matrimônio é uma grande missão. Que tem de haver mesmo esse preparo semelhante ao que se dá em seminários. Sendo o matrimônio a união capaz de formar o núcleo social, formar a vida humana, ele é tão digno quanto consagrar as espécies do pão e vinho em eucaristia. Há uma transubstanciação do rapazote velho e da moça em homem e mulher, há uma transubstanciação de quem antes era só filho e passa a ser pai. A mulher também morre (ou deveria) para o mundo quando se propõe ser mãe e se dedicar para seus filhos. Educando-os, não para o mundo, mas para Deus! O marido também morre para o mundo, consagrando seu corpo e sua alma à sua família e se sacrificando por ela como o padre se sacrifica pela sua comunidade de filhos espirituais. Se todos casais vivessem bem sua vocação matrimonial não haveriam 99% das mazelas sociais, pois a maior crise que há no mundo e que todas outras derivam é da perda da família, dos valores familiares. Esse apostolado que o Robson faz e eu já acompanho há algum tempo, é indispensável! É muito importante! Já aprendi muito com ele e sei que tenho bem mais para aprender. Que Deus o abençoe!

  2. Muito bom, Robson. Acho que uma coisa que precisa ser aprofundada e dita é que o matrimônio sacramental também é uma vocação sobrenatural; não é exatamente o mesmo que o (só) amor dos esposos, mas é a elevação (formalmente “posterior”) do amor humano espiritual (de benevolência, de dileção) e corporal (sensual/erótico) que os esposos já têm (e já teriam se não houvesse o sacramento) à dimensão da Caridade Divina, que alavanca tal amor humano a níveis de doação insuspeitados à simples razão natural.

    • Caro Joathas,

      estou estudando o assunto e preparando algo sobre a natureza da vocação matrimonial. Tenho lido e me convencido que Deus tem, sim, um plano vocacional para cada ser humano. E a vocação matrimonial, assim como a sacerdotal, é dada por Deus no ato mesmo de criação do indivíduo. Assim, o matrimônio não é o limbo das vocações, mas algo que ultrapassa em muito o amor humano mais puro. O matrimônio católico não é algo a que todos os não-vocacionados a vida religiosa são chamados, pois o próprio matrimônio é algo que ultrapassa sobremaneira a vida natural.

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