Foto: Lucas Francisco Neto / Reprodução do Facebook

“Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça como um riacho que nunca seca” Amós.

Estimado Dom Dario,

Qualquer mudança gera um misto de sensações, que passam da insegurança a esperança. Quando me dei conta de que D. Luiz estava prestes a renunciar, por motivo de idade, eu ainda estava no convento. Naquela ocasião comecei a pensar em quem poderia ser o sucessor e como seria bom que Vitória tivesse um bispo muito dinâmico e próximo do povo.

Depois de ter deixado a vida comum na Ordem dos Pregadores, voltei pra minha cidade, retomei meu trabalho, comecei a namorar e continuei frequentando a Igreja, talvez com um pouco menos de frequência e empolgação. Mas eu ia a Igreja. Sempre estive circulando nas proximidades do padre Kélder, meu conterrâneo, pessoa que admiro e que considero um amigo. Devido as atividades que desempenhei no passado em nossa Arquidiocese, aos poucos fui sendo envolvido em alguns trabalhos pastorais.

Quando soube que o Sr. havia sido escolhido para arcebispo de Vitória bateu a curiosidade, o vi poucas vezes e quase não tive oportunidade de conversar. Como será esse bispo? Qual sua linha pastoral? Será que é próximo do povo? Tomara que seja um bispo bom! Nosso Estado precisa tanto.

Então o Sr. mesmo se colocou a me responder. Entrevistado, disse que a Igreja precisa estar onde as pessoas mais sofrem, perto dos pobres, na linha do magistério do Papa Francisco. Na posse, convidou o povo para almoçar e anunciando a reunião do clero convidou os padres para um café da tarde, demonstrando simplicidade e acolhida. Eu sinceramente saí dali mais curioso ainda: “Gente onde encontraram esse bispo, sério, coerente, informal e simpático?”.

Minha curiosidade foi tanta que no domingo saí cedo de Guarapari e fui até Itararé participar da Festa de Reis. Já estava interiormente comovido pela escolha do lugar para a celebração da primeira missa como arcebispo. Fomos eu e minha namorada despretensiosamente para conhecer mais de perto o bispo. Que experiência edificante. Subimos a ladeira no Bairro São Benedito e no “cume do monte” fomos tocados “pela mão de Deus”.

Durante todo o tempo ao nosso lado, como iguais que somos, estavam comunidade, visitantes, autoridades, padres e o próprio bispo, sem corte, sem pompa, sem staff. O Pastor caminhando no meio das ovelhas, abraçando, fazendo fotos, conversando com as senhoras, sorrindo, carregando a própria garrafinha de água. Demonstrando que “não somos melhores nem piores. Somos iguais. Melhor é a nossa causa” como o Sr. disse no final da celebração citando o poeta Thiago Mello.

A celebração no alto do morro foi emocionante do começo ao fim, as pessoas estavam tão felizes, era uma verdadeira “Epifania”. Quando as crianças do SECRI cantaram aquelas canções eu me emocionei de verdade. Na minha mente vinha a todo tempo a emoção de ver tantas coisas bonitas, “doce foi sentir” que estavam sementes do reino presentes e frutificando em um lugar que é apresentado como tão ruim, perigoso, sombrio.

No Domingo, Dia do Senhor, em que celebrávamos sua manifestação a todos os povos da Terra eu vi descer um rio de esperança das escadarias de onde parece escorrer apenas o sangue das vítimas – quase sempre, pobres, jovens e negras – da violência. Eu vi o amor e a paz sendo celebrados pela juventude que é apresentada como causadora da desordem.

Dom Dario, finalizando minha carta, como uma ovelha que recorre a seu pastor eu te peço, nos ajude a ver mais! Aquilo que é invisível não muda. Precisamos ir além. Subir outros morros. Descer em outras baixadas. Poderíamos ir também a todos os hospitais, presídios, escolas. Eu vou junto com o Sr. porque onde o bispo está, ali está a Igreja e onde está a Igreja ali deve estar o bispo. Não foi isso que disse Agostinho?

E eu sou Igreja! Estou empolgado! Feliz! Meu coração está cantando “Bendito o que vem em nome do Senhor” aquele que vem para semear a paz, promover o bem e lutar pela justiça.

Na certeza de que devemos viver uma vida santa e digna, como prefiguração da eternidade feliz que esperamos. Estimado bispo te desejo as boas vindas e me entrego com esperança ao seu pastoreio, vamos “caminhar juntos” e teremos sempre a certeza de ter “combatido o bom combate”.

Abraço Fraterno e a sua benção.

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